Novembro. Finados. Pranteamos nossos falecidos regando sementes de vida. Vida que teima em renascer com vigor nos canteiros da existência.

Publicado em 24 de outubro de 2012

 São lágrimas fecundas que fazem germinar sementes secas. A aparência é de semente morta. Entretanto, semeada e cultivada, florescerá cheia de viço. Assim acontece com nosso ser. Nossa vida está delimitada pelo espaço e pelo tempo, pelas medidas terrenas. Além de limitada, também nossa matéria é corruptível. Seguimos as leis da ordem natural, inexoráveis.

O que nós semeamos adquire vitalidade sob a condição da morte. Pensamento contraditório. Pensemos. Semeamos sementes, não a planta. Nossa vida corporal é como uma semente, envolta no mistério do amor de Deus, Criador e Pai. Da morte Deus faz brotar a vida. Mistério! Ele nos participa a sua vida plena, a ressurreição. Porém, não voltamos a viver a mesma vida corporal de antes. A vida terrena passa. Nosso corpo vira pó.

Nosso Pai Criador nos enviou o seu Filho com a finalidade de nos tornar participantes do mistério de sua morte e ressurreição. É nos dado participar da sua vida, vida nova, vida no Espírito. Por mais que queiramos descobrir o mistério da vida nova, não conseguimos. Deixemo-nos amar por aquele que nos amou por primeiro. Nossa razão não alcança o mistério do amor. Antes é o amor de Deus generoso e gratuito que nos alcança.

Para quem cultiva a fé e constrói a esperança, a vida não é uma sucessão de ilusões e sim um aprendizado permanente. Na terra, porém, o tempo é muito curto e talvez consigamos aprender poucas lições evolutivas. É difícil para a nossa natureza aceitar a si, aos outros, a vida cheia de contradições. Sim, a vida está cheia de contradição. Como é difícil lidar com o ser humano. Além de limitados, corremos riscos de nos corromper quando a razão e a liberdade não são canalizadas para fazer o bem.

A morte significa renascimento de vida quando eu compreender que é meu egoísmo que precisa morrer para que o amor possa nascer em mim e ao meu redor. Esse é um dos sentidos do batismo, simbolizado pela água. A água é símbolo da vida divina. Mergulhados na água somos lavados do pecado e de todo mal. Purificados, emergimos para servir a Deus e ao próximo.

A morte não é fim, mas o fim de um ciclo, dando início a um novo itinerário evolutivo. Sem uma permanente reforma interior, correspondendo a morte ao egoísmo, ninguém consegue transformar a vida, fazendo dela um dom para si e para os outros. É doando-se que também se recebe. É morrendo que se ressuscita para a vida plena. Amar é viver. Amar é morrer.

Dom Aldo de Di Cillo Pagotto, Arcebispo da Paraíba

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